A orla, o saber e a notoriedade

Por Eduardo Galvão*

 
Exponho toda a minha perplexidade – e, talvez, ignorância –  ao ver as imagens e plantas do projeto para a orla de Porto Alegre, que a partir de um procedimento “ad hoc”(muito frequente nas esferas locais) trouxe uma idéia de Jaime Lerner, incensado ex-prefeito de Curitiba (nas palavras de um professor de cursinho em 1972,  o sufixo “ritiba” significava “do mundo”). O arquiteto-prefeito transformou um “XX de mundo” em cidade internacionalmente reconhecida por sua qualidade, com estratégias inteligentes de planejamento e desenho urbano, adquirindo respeito e, justificadamente, a condição de possuidor de “notório saber”: esse o argumento da prefeitura para prescindir de concurso público.
 
Perplexo por não compreender o partido do projeto, ou ignorante por não perceber que sou um idiota? Ambas as duas (!) alternativas podem até conviver, mas vamos lá tentar entender: trata-se de um parque linear, estreito e longo, composto portanto de uma estrutura de caminhos interna e longitudinal. Numa de suas extremidades (Usina) existe estacionamento para cerca de 130 carros, e não se percebe mais nenhum espaço para parada de veículos e ônibus, resguardado da via pública, ao longo dos mais de 5 quilômetros da Avenida. Eis minha perplexidade: considera o sábio projetista outra alternativa de acessibilidade imediata – transversal – como por exemplo os refúgios na Beira-Mar norte em floripa (abaixo)? Eles são nós agregadores, cumprindo a função de parada, belvedere e apoio – bar, refeições, lazer….
 
 
 
Enfim, acho que algo não está bem no projeto, mesmo partindo de um detentor de notório saber: ou existe um erro de base na idéia do Lerner, ou eu sou um imbecil por não perceber que as premissas que coloca fazem sentido, e que as pessoas vão simplesmente estacionar seus carros no meio-fio, os ônibus vão parar no meio da rua, os flanelinhas vão continuar nos “ajudando” a arrumar vaga…
Sei lá, nada contra o notório saber, desde que ELE SAIBA.

Se eu estiver certo (o projeto tem um erro de base, e precisa ser corrigido) que se arrume, ainda é tempo, está no papel, E QUE SE CONSTRUA DE UMA VEZ. No próximo, que se faça concurso, OK?
E eu estiver errado, tudo bem, que seja um passo para que meu saber seja aprimorado. Mas onde vão parar os carros, mesmo?

 
(*) arquiteto e professor de projetos de arquitetura da UFRGS
 
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Sobre Jac Sanchotene

Trabalhadora da Cultura, formação em Ciências Políticas e Econômica, Mãe da Greta, coordenadora do Movimento Viva Gasômetro.

Publicado em abril 3, 2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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